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Do sonho à realidade: a vitória da resiliência

19 de Novembro de 2018 - Série Prata
Foto: Alex Borgmann

Foto: Alex Borgmann

Sou fruto de uma geração cujos olhos não marejaram diante dos clássicos protagonizados nos anos dourados da equipe passo-fundense no Ginásio Capingui. Os gritos ensurdecedores de apoio que ecoavam das arquibancadas embalando o vai-e-vem- da bola dentro das quatro linhas, os cânticos entoados sílaba a sílaba pela voz do coração, a adrenalina das decisões que extrapolavam o limite da razão para transcreverem o resultado do jogo a poucos segundos do fim: sensações que só conheço pela narrativa alheia.

Na época em que Passo Fundo estava representada na elite do futsal gaúcho, eu mal me conhecia por gente. Tudo se resumia a relatos fragmentados de histórias não vividas, apenas ouvidas. Da colcha de retalhos que costurei na memória pelos recortes da realidade de quase duas décadas atrás, restava o desejo de, uma vez, contar a história por minha própria voz, com sentimentos que a mim pertencem e que não precisei tomar por empréstimo da percepção dos outros. Quis o destino que a noite do dia 17 de novembro de 2018 materializasse o sonho que não era só meu, mas de cada alma que revestiu-se do manto passo-fundense desde a retomada do projeto quatro anos antes: o acesso à Série Ouro, enfim, tornou-se realidade.

O caminho percorrido até que as lágrimas de emoção pelo acesso encontrassem o sorriso abarcando a distância entre as duas orelhas não iniciou com o jogo de estreia desta temporada. Começou antes, muito antes. Fruto de uma utopia: a de recolocar o futsal passo-fundense no posto que seu legado lhe atribui como direito. Até por isso, ao enxergar o olhar carregado de felicidade de jogadores, comissão técnica, dirigentes e conselheiros pela classificação à final, revisitei, mentalmente, a lembrança de uma noite em que alguns daqueles mesmos olhares esvaíam um sentimento oposto: o de frustração. Mais precisamente, em 13 de setembro de 2014, data da eliminação do Passo Fundo Futsal nas quartas-de-final da Série Bronze. A derrota para o Guarany, de Espumoso, travou na garganta. De trás da goleira do ginásio do Caixeiral Campestre, ao soar do apito final, compreendi o tamanho do desafio ao qual aquele grupo de “loucos” – como chegaram a ser chamados – estava se propondo. Não seria fácil, eles sabiam. Mas valeria a pena.

Dali em diante, as tortuosidades do percurso impuseram ao clube a necessidade constante de reinvenção: de aprender a lamber as própria feridas e recuperar a confiança. Do quase rebaixamente na fatídica campanha de 2015, da classificação heróica para a semifinal de 2016 com gol a um segundo do final da prorrogação, da indigesta desclassificação por decisão do TJD na semifinal do ano passado. O “quase” soube atormentar as expectativas. Por determinação do destino, resiliência tornou-se verbo no vestiário. Em todas essas vezes, prevaleceu a crença em uma temporada melhor no ano seguinte, na colheita obrigatória do plantio opcional, na justiça que tardaria, mas não falharia. E assim foi.

Antes mesmo de o sol se despedir do sábado (17), o Capingui começou a ganhar vida. A antecedência na chegada ao ginásio revelava a ansiedade de um dia cujas horas tardaram a passar. A decisão estava próxima, assim como a conquista do principal objetivo da temporada. Tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante. Os quarenta minutos restantes arrastariam consigo as expectativas para o futuro da modalidade na cidade. Havia, ali, muito mais que uma vitória em jogo.

O apito inicial, como de praxe, foi precedido pela inspiração mais profunda, pelo sinal-da-cruz,  pelo pé direito ao ingressar na quadra. Cada qual na sua fé e no seu ritual, os torcedores elevaram, juntos, preces para que a injustiça não fosse escalada para o jogo. Entre tantos pedidos e promessas, o resultado estampado no placar eletrônico durante o coro da contagem regressiva marcava o início da uma nova fase, de um novo capítulo na História do esporte local, de uma esperança renovada. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Explode o Capingui. O Passo Fundo Futsal é ouro!

O registro dessa noite será um legado para as gerações futuras. As minhas e as suas. Quando os filhos e netos nos questionarem sobre o “jogo do acesso”, seremos voz, não apenas ouvidos. “Eu estava lá”. E a partir desse ponto, brotarão detalhes sobre o gol do artilheiro Romarinho, a virada da AGE pelos pés de Ticz e Gregory, a recuperação passo-fundense com Dani Ottoni e Nuno, e a emoção do gol de ouro do Imperador. E, além dos registros orais, todos os textos publicados acerca dessa clássica semifinal eternizarão a conquista do Passo Fundo Futsal.

Todas as fotos, todos os áudios, todos os vídeos: todos os recursos, enfim, que perpetuem as vivências dessa noite tão sonhada e tão aguardada. Talvez, esse se torne o capítulo de algum livro de História. Possivelmente, não tão famoso quanto o ‘Dia do Fico’, mas registrado em forma de epígrafe como o ‘Dia do Acredito’ – constituinte obrigatório da biografia de todos que estiveram no Ginásio Capingui. Há, ainda, uma final a ser decidida. Um novo clássico. Uma nova noite. E, se depender da equipe passo-fundense, um novo motivo para marejar os olhos e emocionar a alma.

Fonte: Dani Freitas Esporte Clube

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