Artigos / Marcio Bariviera

Eu tive um Ortiz

22 de Outubro de 2018
 Eu tive um Ortiz

Foto: Divulgação

O pessoal dos anos 90 deve lembrar: aquele Penalty Ortiz era um baita tênis de futsal. Para mim, inclusive, foi o melhor de todos os que tive, o qual aguentou dois anos.

Meu Ortiz (tênis, para que fique claro) era uma espécie de kichute com grife. Quem teve um kichute na infância sabe do que estou falando. Sair de um kichute para um Ortiz era como trocar uma bicicleta com rodinhas por uma Caloi Cross.

O tênis não era dos mais baratos. Pelo contrário, era dos chamados tops de linha da época. Lembro até da propaganda, o Ortiz falava segurando o tênis na mão e uma sombra ao fundo simulava lances de futsal, com direito a um voleio bem ao seu estilo.

Até o cheiro da caixa do tênis (e do próprio tênis) era diferenciado. Você não tem noção. Aliás, só quem teve um Ortiz poderia ter noção. Tive até certo receio em estreá-lo, pois era daqueles tênis de ir à missa.

E como surrei aquele tênis... A gente disputava campeonatos municipais, regionais, treinava, jogava em horários alternativos... Enfim, era quase diário o seu uso. E ele aguentava firme. E se contar tudo o que ele apanhou e o tanto que foi utilizado, meu companheiro foi valente demais.

Depois de dois anos bem aproveitados, sola gasta aqui, esfoladas e arranhadas ali, tinha chegado a hora de despedir-me do tênis. Quase chorei quando minha mãe o doou. Eu sabia que com aquele gesto a gente estaria ajudando alguém e isso amenizou minha tristeza. Porém, ter de separar-me dele foi uma tristeza ímpar. Hoje posso dizer que a dor passou, mas a cicatriz ficou.

Mais adiante usei outros tênis: Dal Ponte, Kappa, Kelme, Nike, todas as marcas de alta qualidade, mas, com o perdão do trocadilho, nenhuma chegou aos pés de meu Penalty Ortiz, o qual conhecia meus calos, sabia das dores nos tendões, tudo. A gente tinha uma relação quase de irmãos.

Conheci o Ortiz pessoalmente em 2012, depois de alguns confrontos entre as categorias de base de Inter e União Frederiquense. Acabei esquecendo de comentar o assunto, mas não tenho dúvida de que a sombra que deu aquele belo voleio na propaganda foi protagonizado por ele mesmo. O que seria normal. Afinal, ele era diferenciado. Como também era o meu tênis.

Marcio Bariviera

Colunista do jornal O Alto Uruguai e gerente administrativo do União Frederiquense, ambos de Frederico Westphalen-RS, além de aficionado por futsal. 

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