Artigos / Marcelo Fripp

O Futsal e a ComunhŃo

18 de Março de 2019

Fim de semana fui na igreja. Foi bom. Aprendi um monte, principalmente sobre o objetivo maior de Jesus Cristo (me perdoe, mas te respeito se tu não é cristão, mas faço referência aqui porque é a religião que sigo desde que nasci), segundo está escrito na Bíblia: a comunhão, o bem comum de todos, todos irmãos e iguais perante o fato de serem humanos, sem distinções, se preferências a pobres ou ricos, gordos ou magros, altos ou baixos, pretos ou brancos, azuis ou vermelhos...

Deixa estar que, o Futsal é mais ou menos isso. O Futsal é religião, é confraria. O Futsal é comunhão. O Futsal é de todos e para todos. Calma, não estou querendo dizer que tu tem que substituir tua crença espiritual pelo mundano salonismo, apesar de que acredito que em algum rincão do mundo alguém cultue um deus que jogava bola em um salão de bailes... 
Vou tentar explicar com fatos, com exemplos:

Pra começar, vou voltar aos já longínquos anos de 1990. Na época eu tentava praticar o futebolismo na quadra. Devia ser sub 15 ou algo próximo. Chegava na Vila uma Kombi cheia de freis capuchinho, ia rolar por lá as Missões Católicas. Aqueles senhores de fala mansa, amiguinhos dos animais e muito amigos de todos que aproximavam-se, passadas duas semanas, estavam fatigados e entediados de peregrinar de igreja em igreja. Sem cerimônias dois deles, acompanhado do padre local, foram até o Ginásio em busca de uma atividade mais transpirante. Logo foi proposto aos dons de batina marrom, uma peladinha no salão de bailes. E que baile. Eram seis os capuchinhos que, na nossa infante inocência, aceitamos o desafio. Eram seis os capuchinhos, uns mais de idade e outros pelos 25 ou 30 anos, que em nossa desafiadora adolescência, perdemos. Mas não foi uma derrota aguerrida, de um time sub 15, que dedicava rotinas de treinos à busca da qualidade. Foi uma derrota acachapante, um fiasco, um arrodeão. Não vimos a bola, os freis cansaram de dar caneta em nós, ficaram com vergonha de tamanha vantagem que obtiveram, ao fim daquela longa hora que nunca chegava ao fim.

Dessa época, também lembro das mães e pais, irmãos e irmãs, que faziam das disputas salonistas, lá na Vila e por onde andávamos (de Kombi ou com o micro da prefeitura) pela região, encontros de família. É dessa época que me batem nostálgicas memórias em cada ginásio (leia-se Salão de Baile) que chego, na contemporaneidade, e me deparo com famílias inteiras na arquibancada, torcendo pelos seus – é a mãe, a filha, o pai, o filho, o bebê, o piá de 10 anos, o bacorote de 15, o vovô e a vovó, todos uniformizados com as cores do seu time.

Outro exemplo veio junto com os Jergs (é, Jogos Escolares do Rio Grande do Sul). Na Vila, onde eu morava, minha escola era soberana. Tínhamos acesso a um monte de recursos que para o pessoal das escolas do interior do municípios eram mais distantes. Até que um dia, instalaram uma quadra na Escola da Linha Mambuca e outra na Linha Esquina Beck. Nunca mais ganhamos nada, lá na colônia eles se dedicavam muito mais que nós e quando dos confrontos, levavam a melhor (até porque, na Vila, nós só comia salgadinho e soda limonada, e lá fora eles se alimentavam, com leite e mogango)

Também é dessa época a soltura das amarras de preconceitos que por vezes atrapalham, nos deixam embaraçados. Talvez até uma cultura religiosa (já que começamos falando disso) tenha a ver com isso. Até eu sair do Mobral (1995), era feio, quase um sacrilégio, mulher jogá bola. Fosse o futebol que fosse, mulher não tinha que movimentar o instrumento esférico com os pés, “isso era coisa de homem”. Mentira! Mal sabiam os conservadores (e as conservadoras também, porque as mães criavam as filhas com esse pensamento) que a ternura e a garra feminina tinha muito a contribuir para o futebolismo, fosse na grama, fosse no salão... quanta disciplina técnica e ética têm as mulheres no Futsal. Encho os olhos vendo futsal feminino, com tudo que sabe Elas do Futebol de Salão, quanta graça e quanta habilidade têm nos demonstrado todos dias nas quadras. Que bom que cultura é mutante e sabe se adaptar e os retrógados moralistas perdem espaço e hoje a mulherada tá dando show.

Esse é o Futsal. Comum. De comum prática. Comum para todos. De Freis, de homens de gravata, de mulheres de vestido, de guris da cidade e dos piá da colônia, de pobres e ricos, de pretos e brancos, de feios e bonitos (obrigado pela parte que me toca). O Futsal é pra todos, é de todos. O Futsal iguala, equipara, a todos. O Futsal é Comunhão (se pensar em hóstia, lembra aí do cachorro-quente e do pastel gorduroso, que não faltam em ginásio algum, e faz uma relação)!

#VemComAGente! Upa grande, beijo no coração e que siga o baile, porque o salão é nosso!!!

Marcelo Fripp

Repórter do Grupo Diário da Manhã de Passo Fundo, setorista e apaixonado pelo o futsal. Nascido e criado onde o baile acontece em salão de tabuão e piso bruto.

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