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Jogo direto ou de aproximação?

07 de Novembro de 2017 - Conceitos, diferenças, pontos positivos e negativos, sobre estilos de jogo no Futsal atual
Jogo direto ou de aproximação?

Foto: divulgação/arquivo pessoal

Nunca é demais lembrar, que toda vez que escrevemos sobre algum assunto, as posições defendidas são de opinião pessoal. Dentro do nosso esporte não existe uma verdade absoluta, muito pelo contrário, existem sim diversas maneiras de se chegar ao objetivo, sendo essas maneiras mais ou menos atraentes ao gosto pessoal de cada um. Dito isso, toda a explanação que segue representa ideias de como o autor do artigo se posiciona e entende determinado assunto. Sendo assim, são minhas verdades, que com certeza será o mesmo que muitos pensam e o contrário do que vários entendem sobre o mesmo assunto.

Recebi com muita alegria o convite do Sandro, para, no espaço que ele administra, expor ideias sobre futsal. Entendo que é a melhor maneira de expormos o que pensamos sobre diversos assuntos, fortalecendo e incitando a discussão, promovendo o crescimento da modalidade e dos profissionais que nela militam.

Escolhi como primeiro assunto algo que quem me conhece ou já conversou comigo sabe que gosto muito de discutir.

Jogo direto ou de aproximação como conceito de ataque para minha equipe?

Vou começar explicando o que – para mim – é jogo direto e o que é jogo de aproximação.

JOGO DIRETO – (muito praticado no Brasil) – Conceito de jogo que utiliza o menor número de passes possíveis na zona de armação, fazendo a bola chegar o mais rápido possível na zona de finalização, se utilizando de ultrapassagens ao pivô, para baixar a linha de marcação do adversário.

JOGO DE APROXIMAÇÂO – (pouco utilizado no Brasil) – Conceito de jogo que valoriza a posse de bola e a elaboração do ataque através de apoios (portador da bola sempre tem opções de passe curto, longo e de segurança), construindo assim um ataque consistente na zona de armação que aproveita as costas dos adversários para entrar na zona de finalização, seja com uma tabela, 1x1 ou fugida.

Vale a pena frisar, que conceito de jogo não tem nada a ver com sistema de jogo, pois conceito de jogo (direto ou de aproximação) diz respeito a maneira como um time prioriza desenvolver o jogo e o sistema de jogo (4? ou 31) diz respeito a forma como meu time se posiciona na quadra. Digo isso porque é comum associar o sistema 4? ao conceito de jogo de aproximação e o sistema 31 ao conceito de jogo direto, mas se prestarmos atenção existem equipes que jogam no sistema 4? e praticam o jogo direto e times que jogam no sistema 31 e utilizam o jogo de aproximação.

CARACTERISTICAS COLETIVAS DO JOGO DIRETO

. Poucos passes na zona de armação;

. Utilização de bolas diretas para a zona de ataque;

. Jogo forte de ultrapassagens ao pivô;

. Utiliza muitos passes para o goleiro (para jogo longo);

. Sempre que possível o goleiro acelera a reposição (de preferência para a quadra de ataque);

. Passe forçado para frente.

CARACTERISTICAS INDIVIDUAIS DO JOGO DIRETO

. Bons passadores de bolas longas;

. Prioriza a força do que a velocidade;

. Jogadores sempre procuram o passe para frente;

. Muito importante ter um pivô com excelente domínio de bolas baixas e altas;

PONTOS POSITIVOS DO JOGO DIRETO

. Não corre risco de perda da bola perto da sua meta;

. Rapidamente a bola está em zona de risco para a equipe adversaria;

. Com poucos toques na bola, baixa a linha de defesa adversaria;

. Muito objetivo contra defesas de linhas mais baixas.

PONTOS NEGATIVOS DO JOGO DIRETO

. Maior incidência de contra-ataques, em virtude da não elaboração do ataque;

. Menor posse de bola, passando mais minutos marcando;

. Dificuldade para sair contra marcação pressão.

 

CARACTERISTICAS COLETIVAS DO JOGO DE APROXIMAÇÃO

. Muitos passes na zona de armação;

. Entrada na zona de finalização através de tabelas, 1x1 ou fugida;

. Portador da bola sempre joga apoiado pelos outros três companheiros;

. A equipe cria o momento do passe para frente;

. Passes para o goleiro são utilizados para continuação do jogo de aproximação.

CARACTERISTICAS INDIVIDUAIS DO JOGO DE APROXIMAÇÃO

. Jogadores muito técnicos e com a tomada de decisão muito bem desenvolvida;

. Velocidade ao invés de força;

. Jogadores criativos.

PONTOS POSITIVOS DO JOGO DE APROXIMAÇÃO

. Maior posse de bola, marca menos;

. Cede menos contra-ataques, pois elabora o ataque;

. Não precisa de jogadores especialistas nas posições;

. Muito eficaz contra marcação pressão.

PONTOS NEGATIVOS DO JOGO DE APROXIMAÇÃO

. Risco maior de perder a bola próximo a sua meta;

. Desgaste físico elevado;

. Falta de objetividade contra defesas que adotam linhas baixas.

Quem me conhece sabe que sou um profundo admirador e defensor do jogo de aproximação. Acredito nesse conceito, devido a vários fatores, práticos e teóricos, dentre os quais se destacam os práticos, pois as equipes que comandei sempre atuaram dessa maneira, independentemente do nível de investimento ou dificuldade das competições a serem disputadas.

Os pontos principais pelo qual defendo o jogo de aproximação e gostaria de deixar a título de reflexão e debate de todos, são:

1 – A PLÁSTICA DO JOGO

No primeiro momento parece um argumento sem força. Mas vamos estabelecer os fatos. Acredito ser de consenso ou no mínimo maioria a opinião que o jogo de aproximação é mais agradável de se assistir, quando comparado ao jogo direto. Enquanto não entendermos que nosso esporte é um produto e sendo um produto precisa ser vendido, não entenderemos que a plástica do jogo está diretamente ligada ao quanto nosso consumidor final está disposto a investir. E quem seria nosso consumidor final? O PUBLICO. Sempre uso esse argumento: Duvido, que uma pessoa que nunca tenha assistido futsal, logo após ser convencida por um amigo a ir assistir num ginásio qualquer, uma partida de futsal e chegando lá, assista um jogo em que os goleiros chutam a bola na direção do outro goleiro o tempo todo (pratica muito utilizada no Brasil)e veja jogadores com medo de jogar, que no mínimo sinal de aperto da marcação adversaria transferem a bola para o outro lado ou chutam para fora, retorne ao ginásio para assistir outro jogo de futsal. Quando isso acontece todos nós perdemos.

2 – A EFICIÊNCIA DO CONCEITO

Penso que a bola estando com meu time corro menos risco de sofrer o gol, atraio o adversário para minha quadra e utilizo toda a força desprendida por eles na tentativa de roubar a bola, para gerar uma transição ofensiva para meu time através de uma tabela, 1x1 ou fugida.

3 – O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES TÉCNICAS E FÍSICAS DO ATLETA

Só se aprende a jogar, jogando.

4 – ACEITAÇÃO DO CONCEITO DE JOGO PELOS ATLETAS QUE PRATICAM JOGO DE APROXIMAÇÃO

É muito melhor ter a bola do que marcar.

5 – MENOR RISCO DE CEDER CONTRA-ATAQUES PARA OS ADVERSÁRIOS

Sabendo que qualquer estudo que tenha como objetivo identificar as ações de ataque responsáveis pela incidência de gols dentro do futsal, aponta o contra-ataque como ação número 1, ficando cada vez mais à frente das demais ações, me parece inteligente adotar uma pratica de jogo de ataque que tem por característica ceder menos contra-ataques a equipe rival.

Por último deixo algumas perguntas e posições que estou acostumado a ouvir quando se trata desse assunto.

“Jogo de aproximação e muito bonito, mas não tenho como praticar, pois, minha quadra é muito pequena e meu plantel não é qualificado”

Vamos lá – no que diz respeito a dimensão da quadra, no meu ponto de vista, a única coisa que muda quando comparamos jogo de aproximação em uma quadra menor (30 até 34 metros) com uma quadra de dimensões maiores (36 até 40 metros), seria que nas quadras menores o jogo é de uma fase só, ou seja, logo após a primeira linha de marcação ser superada, a equipe que está atacando já está em zona de finalização e em quadras maiores, o jogo é de duas fases, ou seja, quando a primeira linha de marcação é superada, existe antes da zona de finalização uma zona de transição para a zona de finalização, fato esse que permite a equipe que está defendendo, através de um bom retorno defensivo se reorganizar e recompor a defesa numa linha mais baixa de marcação. Sendo assim a dimensão da quadra por si só não seria um fator limitador da pratica do jogo de aproximação.

Sobre a qualidade técnica do plantel, é obvio que existe uma influência direta na qualidade do seu jogo de ataque, agora sempre é bom lembrar que somos treinadores, ou seja, treinamos as pessoas para melhorar suas capacidades, sendo assim também não considero um fator determinante para a escolha ou não do jogo de aproximação como conceito da minha equipe.

“Como faço para minha equipe jogar dessa maneira? ”

Quando começo a responder percebo que a maioria das pessoas estava esperando que eu explicasse uma a uma as “jogadas de saída de pressão” que utilizo ou o tão comentado e procurado “padrão de jogo”. Então começo a explicação dizendo que o que menos importa seria essas duas questões e que elas por si só não resolvem, nem desenvolvem nada se seus jogadores não estiverem totalmente desenvolvidos e adaptados dentro dos conceitos que o jogo de aproximação prioriza.

Passei a notar que na maioria das vezes a pessoa que formulou a pergunta se quer imaginava, ou se sabia não dava a devida importância, que para desenvolver uma “jogada”, seja ela qual for, existem requisitos técnicos e táticos, que preciso trabalhar, e muito, para que meus atletas sejam capazes de atingir o nível desejado com a “jogada”. Seria colocar a “carroça na frente dos bois” começar pela “jogada” ou “padrão”, executando intermináveis repetições com e sem marcação, antes de trabalhar através de diversos tipos de treinamento as capacidades dos meus atletas para que eles consigam executar a “jogada” da maneira mais eficaz possível. Mas isso já e assunto para o próximo artigo – JOGADAS OU CONCEITOS?

Guilhermo Petrucci Verfe

Guilhermo Petrucci Verfe, treinador de Futsal, 33 anos. Licenciado e Bacharel em Educação Física pela Universidade Luterana do Brasil – ULBRA (CREF – 009251-G/RS). Especialista em Ciências aplicadas ao Futsal e Futebol de Campo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS

Habilidades complementares:

Analise do desempenho – Video Observer e Futsal Stat

Edição de Vídeos – Tactical Pad, Movie Maker e Adobe Premier

Controle do treinamento

Idiomas - Fluente em Espanhol

Formação complementar:

2003 – Preparação Física para o Esporte – GF Eventos

2003 – Treinamento de Futsal no Alto Rendimento – GF Eventos

2010 – Metodologia do Treinamento de Futsal – Joinville Futsal

2014 – Estagio para Treinadores de Futsal - JEC/KRONA

2015 – Futsal da Base ao Alto Rendimento – Unisport Brasil

2016 – Sistemas ofensivos do jogo 4-0 e 3-1 – Futbol – Tactico

2016 – A formação do jogador inteligente – PRONEO

2016 – Fórum Nacional para treinadores de Futsal – Unisport

2017 – Estagio no El Pozzo – Murcia Espanha

2017 – Estagio no Marfil Santa Coloma – Santa Coloma Espanha

2017 – Estagio no Movistar Inter – Madrid Espanha

2017 – Estagio no Barcelona – Barcelona Espanha

2017 – Estagio na Seleção Brasileira – Barcelona Espanha

Nos cursos citados acima foram acumulados experiências e ensinamentos dos professores João Carlos Romano, PC de Oliveira, Ferretti, Marcos Soares, Andreu Plazza, Joaquin Martin, Duda, Oscar Redondo, Jesus Velasco, Chicho, Cidão, Marquinhos Xavier e Bie.

Atuação profissional:

Esporte Universitário da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA – CanoasRS

Acadêmicos da bola – CaxiasRS

Clube Atlético do Vale – ParobéRS

SapucaienseSot Log – Sapucaia do SulRS

Milionários – CachoeirinhaRS

Município de Canoas – CanoasRS

Associação União – PortãoRS

Município de Campo Bom – Campo BomRS

Unidos da Campina – São LeopoldoRS

Associação Guaibense de Futsal – GuaíbaRS

Associação Ibirubense de Futsal – IbirubáRS

Associação Tubaronense de Futsal – TubarãoSC

Conquistas coletivas:

Bi-Campeão da Copa Mercosur de Universidades – 2006 e 2007

Campeão da XIX Copa Independência – 2008

Campeão do Intermunicipal de Ararica – 2012

Campeão da Copa dos Campeões – 2012

Campeão da Copa Lavoiser – 2013

Campeão da Copa Sapucaia – 2013

Campeão da Copa dos Campeões de Esteio – 2013

Campeão do Aberto do Soberano – 2013

Terceiro Lugar no Estadual Serie Prata – 2013

Campeão da Copa World Ball – 2013

Vice-Campeão do JIRGS – 2013

Bi-Campeão Municipal de Portão – 2013 e 2014

Vice-Campeão do JIRGS – 2014

Campeão do Aberto de Dois Irmãos – 2014

Campeão da seletiva para a Copa dos Campeões – 2014

Campeão da Copa dos Campeões – 2014

Campeão do Estadual Serie Prata – 2014

Vice-Campeão da Super Copa dos Campeões – 2014

Vice-Campeão da Copa Alto Jacuí – 2015 e 2016

Quinto lugar no Estadual Serie Ouro – 2015

Quarto lugar no Estadual Serie Ouro – 2016

Campeão da Copa dos Campeões - 2017

Conquistas individuais:

Melhor treinador da Copa Sapucaia – 2013

Melhor treinador do Aberto do Soberano – 2013

Melhor treinador do Municipal de Portão – 2013 e 2014

Melhor treinador do Rio Grande do Sul – 2016

Integrante da equipe técnica da revista Futbol-Tactico - 2017

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