Artigos / Alessandra Formagini

Onde eu estou me metendo?

06 de Fevereiro de 2019
Onde eu estou me metendo?

Foto: DivulgašŃo

Estava sozinha no quarto de um hotel em Horizontina.  A poucas horas do jogo decisivo, um mar pensamentos - que toma qualquer pessoa envolvida com o esporte, também tomou conta de mim. Eu me preparava para logo mais embarcar com a delegação para Boa Vista do Buricá, na partida que valia vaga na elite do futsal em 2019 – algo que não acontecia para a cidade onde nasci a cerca de 14 anos. E, entre tantas outras, uma pergunta não calava na minha mente: Onde eu estou me metendo?
 
Eu era a única mulher hospedada no hotel. A única da delegação. E era a pergunta que eu fazia para mim mesma. Não só naquela noite. Mas praticamente em todos os dias que trabalhei com o esporte. Uma pergunta que não era falada, mas era dita com os olhos julgadores de muitos que me viam pelas quadras. Uma pergunta que nunca era dita, mas era sentida inúmeras vezes. Que não era perguntada, mas precisava de uma resposta. 
 
Eu nunca duvidei do meu sonho de trabalhar com o esporte. Tampouco, duvidei que por algum segundo não me dedicaria o máximo para fazer o melhor que pudesse. Eu acreditava no meu trabalho. Porém, muitas vezes, como mulher, me senti sozinha. Sem saber de outras tantas mulheres pelas quadras, que também se sentem sozinhas. 
 
Somos minoria. Quase não há representatividade. Quando, em 2016, cai de paraquedas no futsal, não lembrava instantaneamente de nenhuma mulher nesse esporte – muito menos na área da comunicação. E, sem exemplos, às vezes deixamos de acreditar. E, quando isso aconteceu, a AMF acreditou no meu trabalho. 
 
Naquela mesma noite, saímos de lá na Série Ouro e classificados para a final. Comemoramos até o amanhecer daquele dia que não teve fim. Naquele grupo, eu não era a assessora, não era a Ale. Não era a única mulher. Eu era parte do time – tão igual e tão importante como qualquer pessoa que estava lá. Uma igualdade que não foi dita, mas era sentida. E eu entendi finalmente que eu estava “me metendo” em um lugar que também me pertencia. 
 
E, a partir daquele dia, eu nunca mais me senti “a única mulher do time”. Eu me sinto parte do time – com as mesmas cobranças e as mesmas alegrias que todos que fazem parte. E só precisarei ser “a menina da AMF” para dizer para outras meninas que é, sim, possível. E que nossa capacidade de forma alguma está ligada a ser mulher ou homem – e que a sociedade ainda precisa enxergar melhor isso. Assim como eu mesma precisei enxergar. 
 

Alessandra Formagini

Jornalista formada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e natural de Marau/RS. Assessora de comunicação da Associação Marauense de Futsal – AMF, editora do JM/Jornal de Marau e produtora na Vang FM.

Mais Artigos

    Aguarde, buscando...